A vida produz formas. Essas formas são parte de um processo
de organização que dá corpo às emoções, pensamentos e experiências,
fornecendo-lhes uma estrutura. Essa estrutura por sua vez ordena os eventos da
existência. As formas evidenciam o processo de uma história protoplasmática que
caminha para uma forma pessoal humana – concepção, desenvolvimento embriológico
e estruturas de infância, adolescência e vida adulta. Moléculas, células,
orgãos são as formas iniciais do movimento da vida. Mais tarde a forma da
pessoa será moldada pelas experiências internas e externas de nascimento,
crescimento, diferenciação, relacionamentos, acasalamento, reprodução,
trabalho, resolução de problemas e morte. Ao longo de todo esse processo, a
forma é impressa pelos desafios e tensões da existência. A forma humana é
marcada pelo amor e pelas decepções.
Se pudessemos fotografar nossa vida e projectá-la quadro por
quadro, perceberíamos que somos sequências móveis de formas emocionais
variadas.
À medida que dialogamos com as formas que nos cercam –
primeiro o útero; depois com nossa mãe e em seguida com muitas outras –
constituimos os estratos das formas emocionais.
“ Anatomia é destino” afirmou Freud. O processo anatómico
constitui uma sabedoria profunda e poderosa que dá origem a imagens internas de
sentimentos. As formas externas do corpo e as formas internas dos orgãos
falam-nos da motilidade celular, da organização e do movimento da psique e da
alma.
…
A anatomia é o alicerce das relações humanas. O que acontece
dentro de nós, eventualmente também ocorre fora. Os relacionamentos humanos são
interacções somáticas de pulsação emocional e forma comportamental – dentro e
fora de nós.
Relacionamo-nos com os outros por intermédio das formas que
construimos. As experiências emocionais da vida criam forma e formato. A forma
dá às emoções, pensamentos e sentimentos um escoadouro para sua expressão e
satisfação ou inversamente para a inibição e a dor. Com a nossa forma
interagimos com o mundo. À medida que nos abrimos para o contacto com os
outros, amor, intimidade e cooperação, podemos criar relacionamentos para
reforçar ou compensar a nossa forma individual.
Cada um de nós se defronta com um outro. Esse outro interage
connosco, responde às nossas acções e por sua vez provoca respostas em nós.
Nossa humanidade básica depende desse sentimento de ligação. Um vínculo
estabelece-se através de um sistema de poderosas conexões – superfícies
corporais, linguagem, olhos, sentimentos, intimidade emocional, amor e
sexualidade. Nós tocamos-nos a partir de poços do desejo e dos labirintos da
memória dos primeiros cuidados – sucesso ou fracasso no amar e ser amado.
Profundidade, interioridade e união dão início a um vínculo que derrete as
camadas de cautela e medo, as bravatas e os anseios, quando compartilhamos a
nossa verdade somática.
O contacto com o outro é mais do que superfície com
superfície, é também interior com interior. O contacto é estratificado, das
superfícies de comunicação, da camada externa da pele, à segunda camada do
gesto e acção, até à terceira camada de motilidade visceral. Contacto,
vulnerabilidade e intimidade envolvem interacções entre superfícies e
profundezas.
…
O amor e a intimidade mudam a expressão emocional permitindo
experiências que fazem cair defesas. Isto permite-nos sentir o sabor da
satisfação terna. Ao longo do tempo, à medida que o amor e intimidade continuam
e se desenvolvem criam-se formas apropriadas. Das profundezas, camada por
camada emergem novas formas somáticas.
…
Anatomia é destino enquanto processo somático. A anatomia
diz respeito a um processo vivo e dinâmico, um mistério, uma iniciação, a forma
da experiência que dá origem ao sentimento, ao pensamento e à acção. Refere-se
a nós, como formas de sentir. Refere-se à história genética, embriológica e pessoal.
A anatomia, na verdade, refere-se à forma que nos foi dada pela natureza, às
que tivemos que criar como partes de uma sociedade ou família específicas e às
que estamos moldando neste momento.
Conhecer a anatomia emocional é experimentar as dores do
desejo e da decepção, os conflitos do contacto e a luta pela satisfação, o
sabor da intimidade e da individualidade, o conhecimento do amor condicional e
incondicional.
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