quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A linguagem do corpo por Stanley Keleman


A vida produz formas. Essas formas são parte de um processo de organização que dá corpo às emoções, pensamentos e experiências, fornecendo-lhes uma estrutura. Essa estrutura por sua vez ordena os eventos da existência. As formas evidenciam o processo de uma história protoplasmática que caminha para uma forma pessoal humana – concepção, desenvolvimento embriológico e estruturas de infância, adolescência e vida adulta. Moléculas, células, orgãos são as formas iniciais do movimento da vida. Mais tarde a forma da pessoa será moldada pelas experiências internas e externas de nascimento, crescimento, diferenciação, relacionamentos, acasalamento, reprodução, trabalho, resolução de problemas e morte. Ao longo de todo esse processo, a forma é impressa pelos desafios e tensões da existência. A forma humana é marcada pelo amor e pelas decepções.

Se pudessemos fotografar nossa vida e projectá-la quadro por quadro, perceberíamos que somos sequências móveis de formas emocionais variadas.
À medida que dialogamos com as formas que nos cercam – primeiro o útero; depois com nossa mãe e em seguida com muitas outras – constituimos os estratos das formas emocionais.

“ Anatomia é destino” afirmou Freud. O processo anatómico constitui uma sabedoria profunda e poderosa que dá origem a imagens internas de sentimentos. As formas externas do corpo e as formas internas dos orgãos falam-nos da motilidade celular, da organização e do movimento da psique e da alma.

A anatomia é o alicerce das relações humanas. O que acontece dentro de nós, eventualmente também ocorre fora. Os relacionamentos humanos são interacções somáticas de pulsação emocional e forma comportamental – dentro e fora de nós.

Relacionamo-nos com os outros por intermédio das formas que construimos. As experiências emocionais da vida criam forma e formato. A forma dá às emoções, pensamentos e sentimentos um escoadouro para sua expressão e satisfação ou inversamente para a inibição e a dor. Com a nossa forma interagimos com o mundo. À medida que nos abrimos para o contacto com os outros, amor, intimidade e cooperação, podemos criar relacionamentos para reforçar ou compensar a nossa forma individual.

Cada um de nós se defronta com um outro. Esse outro interage connosco, responde às nossas acções e por sua vez provoca respostas em nós. Nossa humanidade básica depende desse sentimento de ligação. Um vínculo estabelece-se através de um sistema de poderosas conexões – superfícies corporais, linguagem, olhos, sentimentos, intimidade emocional, amor e sexualidade. Nós tocamos-nos a partir de poços do desejo e dos labirintos da memória dos primeiros cuidados – sucesso ou fracasso no amar e ser amado. Profundidade, interioridade e união dão início a um vínculo que derrete as camadas de cautela e medo, as bravatas e os anseios, quando compartilhamos a nossa verdade somática.

O contacto com o outro é mais do que superfície com superfície, é também interior com interior. O contacto é estratificado, das superfícies de comunicação, da camada externa da pele, à segunda camada do gesto e acção, até à terceira camada de motilidade visceral. Contacto, vulnerabilidade e intimidade envolvem interacções entre superfícies e profundezas.

O amor e a intimidade mudam a expressão emocional permitindo experiências que fazem cair defesas. Isto permite-nos sentir o sabor da satisfação terna. Ao longo do tempo, à medida que o amor e intimidade continuam e se desenvolvem criam-se formas apropriadas. Das profundezas, camada por camada emergem novas formas somáticas.

Anatomia é destino enquanto processo somático. A anatomia diz respeito a um processo vivo e dinâmico, um mistério, uma iniciação, a forma da experiência que dá origem ao sentimento, ao pensamento e à acção. Refere-se a nós, como formas de sentir. Refere-se à história genética, embriológica e pessoal. A anatomia, na verdade, refere-se à forma que nos foi dada pela natureza, às que tivemos que criar como partes de uma sociedade ou família específicas e às que estamos moldando neste momento.

Conhecer a anatomia emocional é experimentar as dores do desejo e da decepção, os conflitos do contacto e a luta pela satisfação, o sabor da intimidade e da individualidade, o conhecimento do amor condicional e incondicional.

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